Sem uma relação substancial com os objetos que nos rodeiam, nos tornamos indiferentes a nosso mundo material e a nós mesmos. Ou seja, tudo aquilo que serve para ampliar nossa capacidade de tornar tangível o que somos, se esvaziado de sentido, pode contribuir para nossa alienação
— Jean Baudrillard (1996), sociólogo e fotografo francês

Nossa casa representa os bastidores de nossa vida, lugar de retiro e privacidade, sonho e inspiração, desenvolvimento e criação. É ao mesmo tempo refúgio e santuário onde construímos e damos vida a tantas facetas e personagens que habitam simultaneamente em nós.

É um lugar de auto-expressão. Container de memórias, sentimentos e sensações que reúne em um só lugar resquícios de quem fomos, evidências do que somos, e indícios de quem desejamos ser, trazendo  horizontalidade e estabilidade para o efêmero de tantos pensamentos e momentos. Mais do que um abrigo, é um espaço autobiográfico onde reunimos, selecionamos e dispomos de tudo aquilo que nos faz sermos o que somos.

Neste contexto, o projeto PERTENCE busca trazer atenção para o papel que a casa e seus objetos ocupam na construção de nosso imaginário, colocando ao alcance dos olhos uma dimensão onírica de nós oculta no ver cotidiano, mas impregnada de sentidos e símbologias.

Ao trazer atenção para a relação afetiva e identitária que estabelecemos com nossas coisas, o projeto evoca “a alma dos objetos,” este corpo sutil que desafía lógicas mercadológicas e nos apresenta o que de fato nos preenche, nos dá forma, nos revela. Mais que objetos, PERTENCE é sobre identidade, sonhos, laços, valores e memórias que guardamos ou dispensamos ao longo do curso de nossa vida. 



Quais traços de nós esquecemos em cantos de gaveta? Quais memórias tiramos ou deixamos ao alcance dos olhos? O que tudo isso que nos rodeia susurra aos ouvidos diariamente? Conseguimos nos encontrar naquilo que temos?

Objetos por si não apresentam valor ou funcionalidade. Somos nós que os adornamos com sentidos, significados e memórias que nos ajudam a entender o que somos, a que grupos pertencemos e o que nos conecta ao mundo. A importância de um objeto não esta na posse, mas na relação que se estabelece com ele e na forma como ele se integra e transforma a nossa vida

PERTENCE nos convida a lançar um olhar sobre nós a partir daquilo que escolhemos ter. Aos poucos hábitos, gostos, interesses, desejos e memórias vão sendo revisitados e resgatados. Saem de armários, gavetas, caixas e prateleiras para dar forma àquilo que gostamos, sentimos e pensamos. Não estamos falando de segredos ou intimidades, estamos falando do óbvio de nossos gostos e rotinas, daquilo que compõe nosso dia-a-dia e é evidência clara de nossa forma de perceber o mundo.

A fotografia, assim, não surge do reflexo, mas da reflexão. É resultado do estranhamento que se experimenta ao se colocar como observador da própria história impressa naquilo que escolhemos manter ao alcance das mãos.

O que conseguimos dizer sobre nós olhando para nossas coisas? Este é o convite feito em PERTENCE.