Enquanto buscava os objetos pelo quarto, percebi que ele é cheio de pilhas, fileiras, grupos específicos, organizados e agrupados em diferentes lugares. Nunca tinha reparado em como as coisas estão organizadas aqui. Normalmente objetos mais relacionados ao passado ficam guardados, menos acessiveis. São partes de mim que mantenho mais escondidas e, se você reparar, são as partes mais bagunçadas, aquelas que eu não quero que ninguém veja e também não quero mexer muito. O que esta exposto é uma parte mais subjetiva, algo que não revela tantas coisas e por isso me sinto mais segura em deixar a mostra. De qualquer forma, meu quarto representa muito bem quem eu sou. Hoje consigo ver certa harmonia em tudo isso.
— Daniela
Nunca fui de escrever, até o dia em que vi o moleskine de um amigo e achei demais. Ele acabou me dando um e a partir dai comecei. Percebi que era uma forma de não esquecer as coisas, de registrar aquilo que passava pela minha cabeça. Hoje meus cadernos são tudo. Me ajudam a expressar uma parte um pouco oculta de mim. Talvez por isso eu não mostro para ninguém, não deixo ninguém mexer. São como um poço onde posso jogar qualquer coisa.
— Daniela
Acho que uso batom vermelho desde os 11 anos. Foi algo que fez despertar uma coisa diferente em mim, fez eu me sentir bonita. O batom me ajudou a trabalhar minha autoconfiança, o que sempre foi um desafio para mim. Descobri que uma coisa tão pequena e simples pode ser muito poderosa. Hoje, batom vermelho é quase a minha marca. Se estou sem, as pessoas perguntam se estou bem, se estou doente. Virou parte de quem sou, não sei mais ficar sem. É algo que me lembra que eu posso me sentir bonita sempre que quiser.
— Daniela
Gosto muito de fotografar, de usar filmes, de experimentar. É quase uma terapia. Quando não estou bem, tento colocar isso para fora por meio da fotografia e as vezes consigo transformar um momento ruim em uma foto ótima. Esta câmera especificamente era do meu avô. Achei ela perdida no meio das coisas do meu pai e ela representa um pouco dos meus medos guardados. Primeiro porque é dificil de mexer, assim como nossos medos. Segundo porque está relacionada a uma história da família que sempre foi bem complicada de lidar pelo fato da minha mãe ser brasileira e meu pai ser japonês, algo que por um tempo foi uma questão em nossa história. Esta câmera acaba representando um pouco destes medos que estão guardados e que ainda são difíceis de encarar.
— Daniela
Estas duas fitas são meu mapa astral. Minha mãe fez este mapa quando eu tinha dois anos de idade. A primeira vez que ouvi ele tinha uns quatorze anos. Ele fala coisas ‘absurdas’ que tem tudo a ver com minha vida. Ouço estas fitas geralmente quando estou meio perdida, sem saber o que fazer. Nunca tive paciência para ouvir tudo, até porque não é muito fácil de achar um lugar que ainda toque fitas. Mais do que qualquer coisa, elas servem para reafirmar todo este esoterismo que faz parte da minha vida desde sempre. Quando é sobre a sua vida, não dá para falar que é mentira.
— Daniela
Estes objetos representam a minha busca por identidade. São feitos de penas, sementes, metal. A gente vem disso, destes três reinos: animal, vegetal e mineral. E eu quero que meu aprendizado também seja assim, orgânico e natural. Busco o que sou no que uso. Ao mesmo tempo que é um ornamento, é também uma estensão do meu corpo, uma represetação daquilo de que sou constituida.
— Daniela

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